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Não voltei à superfície

Corro entre as árvores maldosas
que confundem meu caminho
tropeço nos meus próprios passos
e me arranho nos espinhos.
A chuva escorre do meu rosto
inundando minha visão
e o único ruído audível
é o descompasso do meu coração.
Paro e olho ao redor
estou sozinha e perdida,
mas nada pode ser pior
do que a dor da sua partida.
Então eu tento me encontrar,
mas já nem lembro onde estou
tudo parece ter saído do lugar
até a trilha se apagou.

E eu não choro...
Esperando você voltar
isso só pode ser um pesadelo
e ninguém quer me acordar.

Não, você não precisa me deixar...
E por favor, não me diga que será
como se você nunca tivesse existido na minha vida.

Não, eu não posso acreditar
suas palavras não doem tanto quanto suas promessas
e não pense que eu vou ficar bem
quando você me tirou tudo o que era importante pra você também.

Ou, talvez eu esteja errada
e tudo que vivemos não foi o suficiente.
Sim, eu já devia imaginar
quando você desapareceu junto com os meus presentes.

Pode levar todas as fotos
e o CD com a minha canção
eu lembro de todas as notas
enquanto desabo pelo chão.
Entorpecida pela dor
eu só pensava em desistir
e mesmo sem perder a consciência
não voltei à superfície.
E os segundos passam...
Se arrastando devagar
pulsando sob um hematoma
que só se faz aumentar
E o tempo passa...
Até mesmo para mim
tentando curar essa ferida
que parece não ter mais fim.

A parte que faltava em mim

Vesti meu jeans gasto e pus a mochila nas costas.
Abri as portas do meu futuro e fechei as do meu passado.
Saí sem olhar pra trás.
A rua estava vazia e minha companhia era o meu velho All Star.
Meu rumo era incerto, mas tinha um destino exato: Encontrar a parte que faltava em mim.
Eu me sentia incompleta como um quebra-cabeça que falta a última peça e eu queria ser terminada.
O sol se punha devagarinho como uma grande laranja prestes a ser devorada e gotas prateadas começavam a aparecer no infinito azul. Era tudo tão bonito que por alguns minutos esqueci do que tinha me proposto a fazer. Enfim a realidade me assaltou e eu segui atrás de algo que eu nem sabia onde procurar.

Então eu andei e andei. Vi coisas que nem pensava em ver, conheci lugares que sonhava em conhecer e ainda assim faltava alguma coisa. Dentro de mim eu sabia que quanto mais o tempo passava mais aquela elipse aumentava. Mas como eu poderia acabar com aquele vazio se não sabia com o que preenchê-lo?
Passei por muitas pessoas, deixei alguns amigos e levei muitas histórias. E o que eu queria permanecia camuflado. Uma brincadeira de pique-esconde que estava perdendo a graça.
Já nem lembrava mais há quanto tempo eu tinha começado minha jornada e às vezes eu não lembrava nem como era meu reflexo no espelho. Aposto que se me visse não me reconheceria. Porém sabia que essa seria uma longa viagem, uma longa viagem à procura do meu tesouro. Pena que meu mapa de localização nunca tenha existido.
Agora eu estava perdida e caminhando pra lugar nenhum. Começava a chover mesmo com o céu estrelado. Esta noite estava diferente, tudo parecia dar errado.
Eu sempre tive uma teoria sobre isso. Quando tudo está dando errado sempre está chovendo. Pelo menos na TV era assim e eu estava confirmando essa teoria.
Sentei na areia da praia desabitada. Já era tarde e eu sabia que não ia aparecer ninguém pra me incomodar. Eu estava completamente encharcada e não me importava com isso.
Ali percebi que já era hora de acabar com a minha aventura mesmo sem ter conseguido o que pretendia. Percebi que era tarde de mais pra mim. No fim das contas eu era assim e ponto. Não tinha um complemento.
Cada um tem o seu destino e aquele parecia ser o meu: Ser vazia e sozinha como essa praia que é sinônimo de calor, mas que quando anoitece é abandonada.

Tinha que ser assim.

Parti com expectativas e tudo o que encontrei foram mais questões.
Eu nunca acreditei muito em Deus, mas naquele momento podia senti-lo ali e se eu me esforçasse acho que poderia até vê-lo escondido entre as nuvens. Ninguém me ouviria ali a não ser Ele.
E aí eu gritei. Gritei com todo o ar dentro dos meus pulmões. Gritei pra Ele e talvez mais pra mim mesma que se essa era minha sina eu não a queria.
Eu não merecia ficar esquecida como uma lembrancinha dentro de uma gaveta.
Então corri pro mar.
Decidi que se eu não tinha tanta importância eu não seria mais nada.
Fui sendo levada pela correnteza e tive medo. Tentei não pensar em nada e só ouvir o barulho da água. Meu medo foi desaparecendo porque eu sabia que em breve tudo estaria acabado.
Meus ouvidos foram ficando abafados até o som cessar por completo, minhas vias respiratória ardiam como se eu estivesse respirando pequenas tachinhas e por fim a luz apagou.
Esperei quase que feliz pela inconsciência, mas pude sentir algo segurando meu corpo. Mãos?
Será que morrer era assim?
Eu sentia frio. Nunca gostei de calor então o frio era melhor mesmo.
Eu sentia vento. Era como se eu estivesse no meio de um furacão e ele me soprasse pra longe.
E eu vi luz.
Meus olhos estavam fechados, mas eu podia ver a luz tentando ultrapassar minha pálpebras. Eu devia estar no céu.
Fiz força para abrir os olhos e percebi que podia respirar. Doía, mas eu respirava! Morrer era mais do que eu imaginava.
Finalmente minha visão entrou em foco e eu pude ver. O rosto mais perfeito do mundo estava bem ali, meu anjo glorioso esperava para me levar. Eu sabia que suicidas não tinham um lugar no céu, mas naquela hora tudo parecia ser possível.
Meu anjo era lindo, mas pelo que eu havia lido eles eram criaturas maravilhosas. Procurei pelas asas e não as encontrei. Foi só aí que eu reparei na expressão e no olhar do anjo. Ele parecia apavorado e estava molhado também. O que havia de errado? Nós estávamos no céu o que poderia ser tão assustador?

A realidade!

O frio era da chuva que caía. O vento era da sua respiração. A luz era da lua.
Eu não tinha morrido droga nenhuma e o anjo era na verdade meu salvador.
Como eu odiei aquele momento.
Como eu odiei meu anjo.
Justamente agora que eu queria partir definitivamente. Justamente agora que eu queria parar de sofrer.
Por que ele me salvou? Ele não podia ter feito isso!!
É, Deus estava mesmo ali e certamente não gostava de mim. Estava me dando uma segunda chance que eu não queria... Estava desperdiçando Seu tempo com algo que não tinha mais solução.
E o anjo continuava ali me olhando.
Tentei me levantar e ele ajudou. Sentei na beira da praia completamente tonta e atordoada. Então ele falou:
― O que você estava fazendo? Tentando se matar?
Fiquei envergonhada demais pra responder e baixei a cabeça.
Ele continuou:
― Eu te ouvi gritar e correr. Primeiro pensei que estava fugindo de alguém, mas depois quando você estava afundando entendi o que estava tentando fazer ― a voz dele era raivosa, quase colérica.
― Então por que não me deixou em paz?! ― minha garganta ardia muito e a voz saiu como um suspiro baixo e deprimido.
Minha cabeça continuava abaixada porque agora eu não tinha forças o suficiente para levantá-la. Mesmo sabendo que a pergunta era retórica ele respondeu:
― Em paz? É, talvez eu devesse ter deixado você morrer... ― o tom de voz atenuou ― Desculpe.
Ficamos em silêncio por um tempo que me pareceu uma eternidade.
― Desculpa... eu não queria dizer aquilo. Mas é que... é que... Eu não entendo por que alguém como você queira desistir de tudo.
― Alguém como eu? ― perguntei com receio ― como assim? Sobre o que ele estava falando?
Ele pensou por alguns instantes e falou rápido demais:
― É, alguém tão jovem e cheia de vida. Eu posso ver seus olhos brilharem mesmo estando nesse estado horrível, quase afogada e molhada.
Eu não falei e desejei que ele não falasse mais também. Tudo que eu queria era desaparecer, mas na falta disso resolvi que dormir era uma boa opção. Deitei na areia.
Ele saltou pro meu lado com o olhar preocupado que eu já conhecia.
― Você está bem? Quer que eu te leve pra um hospital? É, acho que devo te levar pra ver um médico. ― percebi que ele não falava comigo e sim consigo mesmo.
― Não ― respondi ― Eu só quero que me deixe aqui, eu só quero dormir um pouco.
― Nesse caso vou ficar aqui até que sinta melhor ― e já estava deitado ao meu lado.
Vi que não podia fazer mais nada e nem queria fazer mais nada. Apenas fechei os olhos e vaguei pelos meus pensamentos confusos.
Quando acordei notei que não estava mais na areia e sim numa cama fofa dentro de um quarto mal iluminado. Assim que abri os olhos meu anjo sorriu. Depois ele cuidou de mim até eu sarar por completo.
Resolvi que era hora de partir mais uma vez.
Não perguntei seu nome nem ele o meu. Saí sem me despedir, como era de costume, mas deixei uma longa carta de agradecimento e promessas que eu esperava cumprir.
Meu rumo agora? Lar.
Finalmente eu tinha encontrado a parte que faltava em mim.
Na verdade não se tratava mais de mim e sim dos outros. Eu encontraria a felicidade se fizesse outras pessoas felizes. Eu não ficaria só se fizesse companhia pra alguém.
Deus me dera uma segunda chance e um anjo.
Eu voltei pra casa e fui feliz.

Os Intrometidos

Era uma vez 4 meninos intrometidos que resolveram unir forças para combater o terrível Sr. dos Acordes Desafinados.
Cada um deles possuía um dom especial, por isso eram quase imbatíveis. Só havia um inimigo que eles ainda não haviam derrotado e essa luta estava apenas começando.
O Guitar Hero, hipnotizava qualquer pessoa com seus solos de guitarra. O Super Bass era capaz de estourar os tímpanos de qualquer um com seus acordes graves. O Drumman lançava suas baquetas afiadas a uma distância inimaginável. E o Vocal Star transformava-se em qualquer coisa que sua voz fosse capaz de imitar.
Assim Os Intrometidos foram criando cada vez mais força, poder e controle sobre seus poderes, porém suas habilidades não estavam surtindo o efeito desejado contra o terrível Sr. dos Acordes Desafinados. Ele continuava a dominar mais grupos e os meninos não sabiam o que fazer para superar esse obstáculo e impedir que o vilão fizesse mais vítimas.
Sem nenhuma idéia do que fazer eles foram pra luta. Pensavam que talvez com a união dos seus poderes algum milagre acontecesse.
O terrível Sr. dos Acordes Desafinados vinha com tudo e fez com que eles desafinassem logo na primeira canção. Mas Os intrometidos eram mais espertos do que ele pensava e o Guitar Hero hipnotizou a platéia com um solo de guitarra arrasador. E depois veio mais uma chuva de tentativas para acabar com a reputação dos destemidos meninos e eles não se intimidaram.
Aí veio uma jogada de mestre do terrível Sr. dos Acordes Desafinados que Os Intrometidos não esperavam... Ele fez com o Guitar Hero errasse uma nota, o que acabou fazendo com que o Vocal Star ficasse hipnotizado, virando um ditador de regras maligno e perverso.
Dessa vez Os Intrometidos estavam em apuros.
Então, numa coincidência mais que do providencial, eles encontraram os 2 reforços que lutariam ao seu lado até o fim.
O menino possuía o poder da super tecnologia. Com sua spycam ele capturava as imagens dos inimigos para outra dimensão e o seu veículo intergalático era capaz de se adaptar ao tamanho desejado viajando na velocidade da luz.
E a menina... Que tinha os cabelos da cor do fogo, queimava tanto quanto uma fogueira em brasa e do seu olhar saltavam faíscas a cada vez que seu nome era pronunciado.
Foi desse jeito que Sonic3 e Firefox juntaram-se a família de intrometidos. A partir daí a vitória ficou mais próxima, mas a guerra ainda estava longe de acabar.

Inevitável

As lágrimas explodem impiedosamente pelas pálpebras cerradas e o coração está estraçalhado em milhões de pequenos fragmentos, que como um cristal, jamais poderão ser colados.
Ela tem esperança de que aquilo tudo seja uma brincadeira de mal-gosto e que ele vá levantar-se a qualquer momento para dizer-lhe que voltou. Voltou pra ela. Voltou por ela. Os minutos passam e a cada tique do ponteiro ela realiza que aqueles olhos não voltarão a brilhar outra vez.
Ela é amparada pelas pessoas ao redor, que não a deixam aproximar-se dele. Ele está ali. Está a poucos centímetros, mas por mais que ela tente não consegue tocá-lo. A multidão se multiplicou e ela ouve gritos desesperados ao seu redor. Ela não grita. O seu silêncio é a única testemunha da sua dor. As pessoas falam com ela, mas ela não responde. E num segundo tudo vira treva.
Enquanto ela é levada dali, as lágrimas escorrem pelo seu rosto desacordado. E assim foi até a hora em que ela finalmente desperta.
A fronha do travesseiro e as suas roupas estão ensopadas de água salgada. Sentindo-se tonta ela põe as mãos na cabeça a pára a pensar.
O homem ao seu lado espera pacientemente. Voltando a si ela olha o velho senhor e ele simplesmente assente positivamente com a cabeça, respondendo àquela pergunta tácita. As lágrimas brotam dos olhos com ainda mais intensidade do que antes, se é que isso é possível.
A menina está sozinha.
Flashes de memórias fazem com que a sua dor seja física. Ela abraça-se tentando amenizar o vazio que já não pode ser preenchido. As pessoas tentam fazer com que ela reaja de alguma forma, mas suas forças vitais parecem ter sido levadas com ele. E eles tentam e tentam.
Então, com um último suspiro ela levanta-se do seu ninho de escuridão e comparece na celebração mais fúnebre que sua alma pode agüentar.
E o homem fala coisas sobre o céu e terra. E o homem fala sobre amizade e amor. Por fim, o homem diz as palavras que ela espera, mas não quer ouvir.
“ELE SE FOI”.
Ela não quer acreditar. Ela precisa acreditar. Ela tem que vê-lo mais uma vez.
Pedidos e suplicas não são o bastante, ele não está mais aqui é o que todos dizem.
Eu vou voltar, ele disse naquele momento final. E ela vai esperar o tempo que for, mesmo que este tempo seja uma vida.
O destino não tem sido justo com a pobre menina. Roubou seus planos e seus sonhos. Ela não pode continuar. Não sem ele.
Sozinha, sob a sombra da macieira ela lembra o dia em que o conheceu, das mãos deles entrelaçadas e do último abraço. Ela não quer lembrar. Mas é impossível com seus nomes entalhados no tronco da árvore. Ela lembra desse dia também e de como as folhas caíam no início do outono. E dos olhos cor-de-mel e de como ele abria os braços esperando que ela chegasse.
Ela quer que seja real. E quer poder segurar sua mão mais uma vez.
O Senhor aproxima-se tão devagar que ela nem percebe. Estendendo-lhe a mão ele pede que ela o acompanhe. Ainda enxugando os olhos molhados ela confessa seus devaneios mais secretos. Eles caminham em direção ao salão.
As mesas estão cheias e os alunos riem e brincam uns com os outros. Só parecem lembrar-se do acontecido quando ela está presente - já faz dois meses que isso se repete - e nesse momento o Senhor a conduz por entre as cadeiras. O silêncio predomina o ambiente. Segundos depois de saírem do salão já se pode ouvir as vozes novamente.
Param em frente a uma porta que com um clic abre-se para eles. Entram. O escritório é repleto de livros. Uma mesa de mogno está colocada no centro do cômodo. O Senhor, então, empurra a estátua de gesso sobre a mesa e uma porta abre-se ao lado do espelho.
Eles entram e caminham por um longo corredor estreito e mal iluminado. Chegam a uma câmara subterrânea que possui apenas uma fonte com um chafariz no centro. A água azul brilha como se mil cristais estivessem misturados a ela.
A menina não entende nada do que está acontecendo. O Senhor aproxima-se dela e entrega-lhe uma moeda de prata. Ela a pega e o homem sai da câmara deixando-a sozinha com as suas dúvidas.
Hipnotizada pelo brilho da água ela vai até a beira da fonte. De perto era ainda mais bonita e brilhante. No fundo, havia apenas mais uma moeda. Ela finalmente olha para o objeto de prata em sua mão e percebe que há uma inscrição.
“SEU DESEJO MAIS PROFUNDO VIVERÁ POR UM SEGUNDO”
Ela, agora, sabia o que devia ser feito. Fecha os olhos e com toda a esperança que ainda lhe resta, joga a moeda na fonte. Ela espera. Nada acontece. Nenhum sinal, nenhuma luz, nada.
Seu desejo não ia ser realizado, afinal. Isso é tudo uma bobagem. Por que eu ainda estou aqui?, ela pergunta-se.
De repente uma voz chama por seu nome. Ele reconhece o timbre que muitas vezes a fez dormir. Vira-se e ele está ali. Ele está com a sua fita vermelha amarrada no pulso, exatamente como ela havia deixado.
Ele sorri.
Ela corre e pára a centímetros de seu corpo. Ela está com medo de que seja irreal e de alguma forma é. Pela primeira vez ela receia tocá-lo.
Ainda sorrindo ele pega a mão da menina. O abraço é inevitável. Os dois corpos formam um encaixe perfeito. Palavras não podem descrever a onda de sentimento presente. Ele encosta a boca no ouvido dela e sussurra:
“EU VOLTEI POR VOCÊ”
Ela nada diz e beija-lhe os lábios. As lágrimas começam a escorrer por suas bochechas rosadas. O fôlego acaba e as bocas afastam-se procurando oxigênio. Ele toca-lhe o rosto e diz olhando em seus olhos:
“SEJA FELIZ”
Ela pisca lentamente recuperando o ar enquanto ele desaparece dos seus braços como névoa de uma manhã fria.

Untitled

Primiro Capítulo:

O encontro

Senti um ar gelado percorrer meu corpo e meu abracei tentando amenizar o arrepio. Por que eu não tinha pegado o casaco? A mãe disse que podia esfriar de noite. Eu vestia uma blusa surrada e um jeans velho. Meu All Star azul era bem eficiente nesses dias em que eu precisava caminhar tanto. Além do frio súbito – estávamos na primavera e fazia calor – não percebi nada de diferente. Mas ele já me acompanhava, mesmo antes de eu notar.
Distraída eu trocava de música no MP3 insatisfeita com a rádio local. Os fones estavam com um volume bem alto, por isso eu não ouvia os ruídos da rua já quase deserta.
Ele me seguia com passos calmos e contados, numa velocidade constante. Para os outros pedestres ele aparentava passear calmamente olhando as vitrines das lojas com as grades fechadas. Porém para mim não seria apenas isso.
Eu pensava em várias coisas enquanto ouvia Tiago Iorc no volume máximo. Eu pensava nas provas de fim de semestre, nos trabalhos atrasados, nas fotos não reveladas, nas contas a serem pagas... E em como tudo isso era insignificante diante daquele céu imenso. Eu até esbocei um sorriso quando vi uma estrela cadente e fechei os olhos para fazer um pedido. Nesse momento tropecei num pedaço de concreto solto da calçada e fui caindo quase em câmera lenta.
No segundo em que eu ia bater no chão senti duas mãos grandes e frias segurarem meu braço e cintura, impedindo que eu me esborrachasse no cimento. Por ato reflexo me segurei com toda força naquele par de braços e me joguei contra o seu corpo num impacto constrangedoramente forte. Atônita, eu não sabia se ria, chorava ou agradecia a pessoa que me tinha “salvado” desse quase tombo.
Percebendo que ainda estava em seus braços, me afastei rapidamente. Com as bochechas rosadas de vergonha eu ensaiava mentalmente um agradecimento satisfatório. No momento em que eu ia respirar pra começar a me desculpar, finalmente olhei para aquele rosto até então desconhecido e emudeci.
Ele estava parado com as mãos nos bolsos, me olhando fixamente. Aqueles segundos foram os mais longos da minha vida. Meu coração pulava dentro do peito e eu nem sabia se ainda era por causa do susto. Ele sorriu – os dentes eram impecavelmente brancos e brilhantes – e disse:
— Você devia tomar mais cuidado com essas calçadas. Eu posso não estar perto da próxima vez.
A voz dele era a melodia perfeita para os meus ouvidos e foi como um estalo para eu voltar à realidade.
— É... muito obrigado – eu disse completamente inebriada – e eu vou tomar mais cuidado sim.
Comecei a andar para o lado oposto ao que eu vinha anteriormente. Então ele me chamou:
— Moça, você deixou cair.
Caramba, eu nem tinha visto o MP3 voar do meu bolso junto com os fones. Me virei e andei na sua direção com a melhor cara que eu pude fazer. Ele me entregou o aparelho.
— Você realmente tem um péssimo gosto – ele disse zombando de mim.
— É... todos temos defeitos, mas podia ser pior! – falei sorrindo sem graça e voltando a caminhar.
— Realmente, eu podia ter te deixado cair – (ele estava debochando?)
Parei e voltei a olhar pra ele. Eu estava confusa com todo aquele poder de atração.
— Bem, muito obrigado mais uma vez – falei meio tonta – você me poupou de um constrangimento absurdo.
— Não precisa agradecer, o prazer foi todo meu. Além do mais não tem mais ninguém por aqui – a voz dele transbordava na minha cabeça.
Só agora eu percebia que a rua estava completamente vazia. Ainda bem. Provavelmente ninguém tinha visto a minha estabanação.
— É mesmo – respondi com uma surpresa quase exagerada.
Eu queria sair dali rápido, mas algo mais forte me impedia de deixá-lo. Olhei para os lados, zonza, parecia que eu tinha bebido. Percebendo a minha aparente confusão pisquei meus olhos e respirei profundamente tentando amenizar aquela sensação estranha.
Ele, então, sorriu o sorriso mais lindo que eu já vi na vida me estendeu a mão.
— Caius, muito prazer.

Eu não era diferente

Pt.1

Eu me sentia feliz.
Extremamente completa e não desejava absolutamente nada. Eu pensava que era o bastante pra mim mesma, totalmente intransitiva. Eu achava que a minha vida era perfeita do jeito que estava, não tinha problemas. Não tinha nada com que me preocupar. Não precisava chorar com a partida de alguém e nem esperar que voltasse. Pois, afinal, eu não tinha ninguém.
Além do mais, eu não precisava de ninguém e ninguém precisava de mim. Ótimo. Tudo o que todas as pessoas reclamavam que faltava na suas vidas eu tinha de sobra: TEMPO.
Mas o que uma pessoa que tem todo o TEMPO do mundo podia fazer?
Pergunta fácil pra eu responder, já que eu era essa pessoa. Eu lia. Eu lia muito. Eu lia tudo. Eu também ouvia. Eu ouvia muito. Eu ouvia tudo. E, principalmente, eu aprendia.
Eu aprendi tudo o que minha mente podia ser capaz de interpretar. Eu aprendi das mais imensas fórmulas da física até a mais complexa das sinfonias. Eu precisava preencher meu tempo e eu tinha uma constante sede de conhecimento.
Até que um pequeno livro me chegou às mãos.
A capa era simples. Preta e branca. Duas estatuas de pedra se olhando, uma tocando o rosto da outra. Pensei que seria algo totalmente insignificante, mas como tinha TEMPO sobrando, abri.
Não era um livro comum. Percebi que era um tipo de peça teatral. Algo para ser interpretado. Mesmo assim fui lendo pagina após pagina. Fui me encantando com cada palavra, com cada frase. Até que uma passagem me chamou mais a atenção do que as outras.
“Amor é uma fumaça que se eleva com o vapor dos suspiros; purgado, é o fogo que cintila nos olhos dos amantes; frustrado, é oceano nutrido das lágrimas desses amantes. O que mais é o amor? A mais discreta das loucuras, fel que sufoca, doçura que preserva”.
Depois de ler esse trecho me pus a pensar o que era isso que tal autor descrevia com tanto furor. Nunca tinha lido nada parecido. Os outros livros me ensinavam teorias, números e artes complexas, mas isso era novo.
Sem entender continuei lendo e descobrindo mais coisas que jamais me foram apresentadas.
Paixão? Amor? Sentimentos?
Tudo parecia tão intenso, tão abrasador. E para mim era tudo tão inusitado. Como uma coisa assim poderia acontecer entre duas pessoas? Não poderia ser possível. As pessoas que conheci não possuíam tal dom, eram tão frias. Estava tudo tão destruído, tudo sem vida. Será?! Uma criatura viva disposta a morrer pela outra?!
No meu mundo isso é impossível. Todos existem pra si próprios, ninguém convive com outro da mesma espécie. No meu mundo a única palavra de ordem é medo. O único (sentimento?) que as pessoas cultivam é o ódio.
Mas amor? Como eu nunca havia ouvido sobre isso? Parecia uma coisa tão nobre. Tão boa?! E pela primeira vez eu senti um pequeno fio de esperança guiando minha existência.
No meu mundo as pessoas eram guiadas pelo dinheiro, pelo poder. Só pensavam em si e eu não era diferente. Até agora.

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